16 - AGORA É COM VOCÊ!

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Pois bem: o sapato a ser usado como pontapé inicial do seu projeto de solado já está em mãos, o prazo já foi combinado com o cliente (para ontem, é claro), e você já sabe de qual matéria-prima será o solado, bora desenhar? Só mais uma coisinha: vou aproveitar a oportunidade para comentar o que penso daquilo que chamam por aí de inspiração, epifania, sacada. Olha, não espere se sentir “inspirado” para realizar seu desenho. O que eu pude perceber ao longo dos anos, é que existe em determinados momentos uma sensação de extremo prazer e felicidade no momento em que estamos desenhando e tudo parece se encaixar, os traços parecem sair sozinhos e sem esforço da lapiseira. Sim, isso existe. Agora, acreditar que essa é a regra, que sempre acontece assim, aí é ilusão. Digamos que você ainda não tem em mãos algum projeto para criar. A sugestão que dou é simples: dentre os calçados que você possui, separe um tempo para decifrar como ele é feito, quais partes compõem seu solado, se recon...

02 - LEITURAS E REFERÊNCIAS

Este assunto do curso precisa iniciar em algum ponto e é difícil saber onde cada um de nós está no aprendizado de design e tentar apresentar o conteúdo a partir deste ponto específico, então, arbitrariamente vou partir do princípio que você já faz alguns desenhos, seja a mão, seja pelo computador e que você deseja melhorar seus resultados, tanto desenhando melhor quanto obtendo resultados financeiros melhores.
Vou falar um pouquinho sobre mim, pois como afirmei anteriormente, este curso é baseado em minha experiência e opiniões. Comecei a aprender desenhar calçados e solados em 1995, ao entrar como aprendiz no estúdio de design de José Joaquim, um artista genial de minha cidade natal, Franca, interior de São Paulo. A cidade carrega o título de capital do calçado masculino brasileiro, e a época centralizava grandes marcas extenso parque fabril calçadista. Era de certo modo comum algum funcionário que tinha o sonho de empreender e ter sua produção própria que fazia o acerto onde trabalhava e na garagem de casa começava uma nova fabriqueta de calçados. Eu como sempre gostei de desenhar, segui meu caminho na direção do estilismo de calçado, aprendendo sempre que podia. Depois da passagem pelo estúdio do Jota consegui meu primeiro emprego registrado como designer de calçados na fábrica Calçados Ferracini, isso lá em 1997. Dali em diante passei por outras oportunidades, cometi MUITOS erros estratégicos enquanto a indústria calçadista de minha cidade foi sendo esmagada pelos novos tempos e mudanças de mercado. Estive traçando rumos diferentes na vida, e mesmo durante as novas escolhas de carreira, sempre pude contar com o fato da experiência em desenho e dos contatos comerciais feitos ao longo dos anos para realizar trabalhos como designer de calçados, mesmo já formado como Arquiteto e Urbanista. Na prática, são trabalhos diferentes, mas com processos extremamente similares na aquisição de referências visuais, repertório, negociação com clientes, etc. Claro, o gosto pela estética e artes sempre ajuda muito.
Aqui entram as sugestões de leitura e referências. 
Quando ouvimos a palavra repertório, geralmente nos vem a memória alguma coisa relacionada a música, por exemplo, o repertório de uma banda é formado pelas canções que eles tocam, que eles conhecem, dominam. Aqui entra a importância de ampliar o que chamo de repertório criativo: alimente sua mente com formas, cores, imagens, experiências, lugares. Lembre-se do conteúdo do vídeo sobre a visão e o olhar: eduque seus olhos a descortinar os detalhes que o cercam. Uma mente treinada raramente fica entediada. Habitue-se a rabiscar, usando formas simples e aprimorando ao acrescentar detalhes. E também no quesito repertório, se já não for interessado em leitura, tente habituar-se. Não vou fazer uma lista enorme de livros, mas entenda: quanto mais informação você possuir, maiores as conexões que seu cérebro fará para desenhar e criar. Criatividade é a conexão entre pontos que estão dentro de sua cabeça e ao se conectarem, você percebe padrões, formas, ligações. E como as experiências pessoais são únicas, a sua linguagem criativa terá sua marca pessoal. Sim, você pode e deve começar fazendo cópias, buscando as conexões que existem ali, mas logo seus traços irão surgir, naturalmente. E sobre as cópias, o que me refiro aqui é apenas a título de estudos formais, nunca para venda. Não perca seu tempo copiando para vender, não vale a pena e toma o mesmo tempo que você levaria para criar uma arte original.
Leia livros sobre a história da arte, observe a linha do tempo e atente para os estilos que foram surgindo com o avanço humano. Faça este estudo não preocupado em decorar datas e lugares, o esperado é que pela revisitação a estes conteúdos, logo você aprenda quais linhas são do movimento Art Nouveau e quais do Art Déco. Observe, por exemplo, que na época da chegada dos portugueses ao Brasil, o que tínhamos aqui estabelecido em termos de arte era a arte indígena nas paredes das cavernas, enquanto lá em Florença, da Vinci estava com Monalisa (fig.03) secando em algum canto do estúdio. O que quero dizer com isso? A título de aprendizado industrial, foque nas expressões artísticas europeias e posteriormente naturalmente você enxerga as influências que reverberam aqui no Brasil.
Monalisa

Um garoto que fique na porta de uma igreja europeia em um dia de semana, mesmo onde não há serviço religioso, se esse garoto observar os detalhes dos entalhes na madeira da porta, as linhas de construção imponentes e tantos outros detalhes feitos com carinho artístico, os vitrais desenhados, toda essa informação se armazena para ser acessada posteriormente. Procure no Google uma imagem de tampa de bueiro europeia e você vai encontrar algo parecido com o seguinte (fig.04):

Tampa de bueiro na República Checa

Estamos falando de tampa de bueiro! Agora vamos falar sério: a tampas de bueiro perto de sua casa são parecidas com a figura acima? São artisticamente desenhadas? Percebe o que quero dizer sobre estética, referências e repertório? Se os seus olhos passam sobre formas belas e artísticas, mesmo que não esteja prestando tanta atenção assim, aquilo vai para seu cérebro como informação subliminar e fica ali aguardando ser acessada. Aí, você vai fazer um desenho, começa a rabiscar e de repente algumas dessas linhas se apresentam no seu desenho. Ou seja: não existe o “criar do zero” no sentido artístico. É a mesma coisa que pedir para você imaginar uma cor que não existe. Quando você está no processo de criação, as referências que você possui serão seus pontos de partida, querendo você isso ou não. Portanto, aqui há uma sugestão de cuidado com as informações que você armazena. Mais uma vez: seja seletivo e criterioso para escolher o que captar para seu armazenamento criativo interno. Não que o espaço seja tão limitado assim, é que estas imagens irão influenciar as linhas que você irá traçar.
Para além dos livros, temos as revistas de arte, arquitetura, fotografia, catálogo de lojas de móveis de alto padrão, jóias, óculos. Ou seja, as formas que nos cercam são belas ou não, e acredite: muitos produtos não têm sucesso comercial devido a erros estéticos. A ideia é boa, a peça funciona bem, mas algo nela gera antipatia nas pessoas, e as vezes fica difícil estabelecer exatamente o que está errado. Em alguns casos são as proporções que estão erradas, a peça é pequena demais ou grande demais, as dimensões estão exageradas, etc. Portanto, observar as relações de tamanho entre as peças componentes de uma ilustração, desenho, arte, é ponto primordial para alcançar a simpatia dos clientes. Se você está desenhando para atender uma encomenda, o seu gosto pessoal tem pouca importância no processo, o que ele vai fazer é auxiliar nas escolhas formais do passo-a-passo da criação. Então, sim, sua arte via encomenda possui certas funções a cumprir.
Viajar também faz parte da alimentação de seu repertório criativo, você verá cotidianos diferentes, arquitetura diferente, e dependendo de onde é seu destino, modos de vida que são totalmente diversos do seu e que podem trazer novas ideias para você. Observe as placas de sinalização, cores, árvores. Pode parecer piegas, mas é verdade que nenhum pôr do Sol é igual a outro. Só é preciso saber como olhar para encontrar o belo.
Desenvolva o hábito de desenhar rascunhos. Aqui uma outra dica importante: muita gente acredita que para ser um bom designer de solados é necessária habilidade de desenho acima da média e isso não é verdade. Explico: se você sabe escrever de modo legível, pronto, você é capaz de desenhar. A caligrafia em si é um tipo de desenho. É a codificação da linguagem em símbolos coerentes, e estes símbolos foram criados por nós humanos, ou seja: nossa comunicação “natural” é a verbal. A escrita é artificial. E é possível aprender, e aprimorar. Desenho se trata de domar o traço do lápis, assim como fizemos para aprender a escrever. Se você aprendeu, desenhar é para você sim. Ande com um bloquinho para rabiscar, ao ver uma forma geométrica interessante rabisque-a, guarde no bloquinho, mesmo que ela possa ser simples e estar fotografada no celular. O ato de desenhar vai reforçar o registro da lembrança em seu cérebro.
Por fim, habitue-se a fotografar. Seja com celular, ou mesmo uma máquina simples, vai ajudar a focar seu olhar, a enquadrar um detalhe entre tantos e fazer dele um ponto de partida para uma forma interessante em seu desenho. E claro, você vai desenhar solados, portanto, visite sites de vendas de calçados, observe seus solados, verifique se são lançamentos e reedições ou se estão simplesmente requentando o que não foi vendido na estação passada. Isso vai lhe ajudar a identificar as tendências e inclinações estilísticas do mercado, aquilo que poderá vir a ser sucesso nas vitrines, e é exatamente essa a busca de seu cliente: um produto novo que possua identidade, referências e estilo. E sobre identidade do produto: muitas vezes o solado que você vai desenhar será inserido em uma família de produtos que vem com uma história forte, uma identidade estabelecida. Você deverá possuir a informação sobre qual o rumo tomar: apresentar um novo produto que possua identificação fácil com a geração anterior ou se a pedida é um rompimento com a narrativa, um produto novo que vai inaugurar um novo espaço no catálogo da marca. Digo isso pois o consumidor de determinados produtos pode deixar de comprar aquele calçado se a nova edição perder sua capacidade de se conectar com ele, se o produto não mais apresentar sinais de sua identidade: imagine aqui o tênis All Star, da Converse. Normalmente se imagina ele de lona, solado envolvente branco e cadarços brancos. Ilhóses circulares em metal e pronto. Até que eu vi o primeiro em couro, no pé do Will Smith no filme “Eu, Robô”. Simplesmente “precisava” de um tênis daquele, enquanto não encontrei não sosseguei. Ali, a marca trazia inovação sem perder a conexão emocional com o público-alvo. Você como desenhista de solados, irá precisar dessa sensibilidade.
Para não deixar tão aberto assim por quais livros você pode começar, aqui vai uma pequena lista:
- O LIVRO DA ARTE – Martins Fontes
Capa “O livro da arte”
- DESIGN DO SÉCULO XX – Taschen
Capa “Design do Século XX”
- O DESIGN DO SÉCULO – Michael Tambini
Capa “O Design do Século”
A partir destes livros sua percepção artística certamente será ampliada e este último, se trata do design do século passado, ou seja, estamos no início do século XXI, novas formas, possibilidades e materiais estão disponíveis, mas para grande parte daquilo que irá surgir como novidade existe a referência pronta daquilo que ocorreu no século anterior. Este material vale seu investimento e mesmo que algumas informações tratem de algo passado, seu aprendizado será real.

LEMBRE-SE: suas referências estéticas vão influenciar seus desenhos, portanto este capítulo pode ser encarado como aquele que você sempre volta para dar uma olhada, pois vai lhe fazer recordar de atualizar sua biblioteca de imagens e formas referenciais de modo que sempre irá aumentar seu repertório criativo.

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